sábado, 16 de fevereiro de 2013

Arquivo - Poemas manuscritos de vertente erótica - por Manoel Tavares Rodrigues-Leal



Advertências:
Não sabemos bem se devemos pôr letra minúscula ou maiúscula no início dos versos. Em conversa com o autor, acontece por vezes hesitar. Também indica que se coloque uma letra "média" (?). De facto, é um detalhe ainda não decidido, pois os textos não passaram pela leitura e acabamento finais para eventual publicação. Todavia, nos livros já publicados em edição de autor (5 livros), Manoel optou por letra minúscula (http://linguafone.blogspot.com). Com efeito, pode observar-se nos manuscritos que as primeiras letras de cada verso são de dimensões idênticas às restantes. Provavelmente, esta opção gráfica deve-se ao tipo de relação que o poeta tem com o trabalho de escrita que lhe impõe um cuidado e uma minúcia que têm algo de 'micro'. Como se desse atenção, não só às palavras e às frases, mas à letra, às letras enquanto tais, cuja grafia dissesse respeito ao tempo e ao pensamento, justamente no sentido de tudo começar na letra, pesando-a (pensando-a) e nela se demorar. Demorar na letra, na palavra, na frase, enfim na construção do poema. Como se as letras fossem partículas no jogo dessa construção, no forjar, no burilar do poema. Partículas que não só relevassem da gravação-inscrição (da) escrita, mas também como se fossem pequenas incrustrações na matéria suporte que é a folha de papel. Ou granulações da escrita. Vem a propósito aquele célebre verso de Pessanha que Manoel tanto aprecia: " [...] Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..."
Tudo isto tem a ver com o corpo e a escrita, não podendo aqui desenvolver estas questões. No texto que escrevi "O acto de escrita de Fernando Pessoa", parte dele publicado na Revista Nova Águia nº8, e na sua totalidade neste mesmo blogue, encontram-se algumas abordagens sobre o tema do corpo e da escrita, embora na leitura de  Pessoa.
Outra dificuldade é a de, por vezes, os nomes, como p.ex. o de "Lídia", surgirem com letra minúscula. Se bem que, no mesmo poema, o nome "Lídia" apareça tanto com letra minúscula como com maiúscula. Veja-se, conferindo o manuscrito, o terceiro poema desta série dedicado à "Lídia" de Ricardo Reis. Fica-se assim, por agora...

Uma última nota. Volto a repetir, não estou a publicar on line a obra poética de Manoel Tavares Rodrigues-Leal. Trata-se apenas de um ínfima parte. Se vale a pena, só o tempo o dirá.

Luís de Barreiros Tavares
18/02/2013


O verso ou reverso de uma página escrita. Eis um exemplo da relação escrita/inscrição, escrita/papel, escrita/ matéria, escrita/corpo... :







"O Umbigo da Beleza" (1976)









enquanto colhia uma rosa nua no pensamento,
alguém me pensava. que alegria aleatória
a de passear no pensamento dos outros. que vigília
sagrada!...uma linda rapariga repousa em sua lírica vagina.
a areia de uma rara rapariga respira a impossível praia, areia fina...

Lx. 2-6-76

Nota: Nos manuscritos há mais datas indicando as releituras e 'estudos' dos poemas. Escrevemos 'estudos'  de acordo com as indicações que o autor faz no início de cada caderno quando este foi sujeito a revisão: "[caderno] estudado".





(Clépsidra)


evanescente, com um perfume a ópio e ausência,
assim se abre a tua poesia, pessanha.
como em uma manhã messiânica, tua dor sombria, mental,
no umbigo de tantas alvas pedrinhas, pedacinhos de ossos, que oscilam ainda
nas impúdicas vulvas das pequenas praias, aonde assistes, familiar.
em ti, tudo foi medida, mamilos: oh viagens de quem para macau partiu,
e jamais regressou, tatuagem de quem sofreu e fingiu,
olhando, amiúde, para clépsidra, as águas geométricas do pensamento insatisfeito que pariu.

Lx.2-6-76







(Lídia...)


Há uma data de 1970 (?): Lx. 2-6-70


 (Lídia...)

que mentira verdadeira a de ser mero pensamento
na mesa da realidade. fragmento
de uma viagem ao oriente... no limiar
do mar colho a língua da onda mais recente.
(lídia, que adolescente taça tecemos, em vão)
se o dr. Ricardo Reis visse teu púbis beijado,
e, mais que beijado e apetecido, solícito à língua ou ângulo
do meu pénis exacto... afago a fímbria de exílio da praia, e não sou feliz...
o sangue do meu pranto jaz; sou poeta imerecido
de um exílio ou umbigo que nos olhares florescem, lídia,
como sofro o sofrimento do Ricardo, tão senhor e tão servo...
há uma penumbra inteligente e ática em seus poemas,
um perfume a desastres, ó mestre!...
Lídia, dá-me a mão, e, desertos, passemos nosso mútuo abandono...

Lx. 2-6-70 [mas este livro é de 76]
19-12-76




"O Comércio do Amor" (1980):









Clicar sobre as imagens para ampliar:





"Arte do Corpo" ("Espaço do Corpo") - 1977:











em a visitação de mulheres de heras crepusculares,
mas ardentes, e nós de tão ausentes nos fitamos excessivos,
nós amante do rocio dos seus regaços, nós que franqueamos vossos brancos flancos.

Lx.27-1-77




O autor assina "Manoel Pereira de Gouveia" (18/6/90), uma das datas de releitura (estudo) do poema



fevereiro fez ferida, iniciando-se inimigo.
oh noite inolvidável sob a usura de sexo e bica/s (?) e suór.
ter ternura é meta e mito, como riso deslizando em o perfil de uma manhã.

Lx.1-2-77 




(à São)

não houve saliva em nossos beijos à despedida.
por quê, meu bem? o beijo meramente é e coincide com a oferta do dia.
meu bem, beija-me com a abstracta boca de aventura e vida.
o resto é porvir que não se prevê. porque se difere, e a oblação de beijos como eu
em lume a diria.



"Luz de Dezembro" (1978):

(Para a Tereza)











 


 


"Poemana" (1976):

(à Ana -1973)









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