Acima um poema do caderno de poesia Ciclo incompleto sobre a memória de uma mulher
Manuscritos fotografados de livros (cadernos) inéditos. Com o acordo do autor.
O que está entre parênteses rectos é em alternativa no manuscrito.
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Livro: Paisagens de Água
Invocação a Amadeo de Souza-Cardôzo
À mesa do pensamento, nos ajoelhamos:
As cores são velozes, colidem:
Um espelho fragmentado fecunda sol e sombra.
Eis a ordem do real ___ por que as coisas, olhadas, nomeamos.
Lx.12-7-77
A noite digere
seu véu de azul...
A noite despe-se
para, em alegria, madrugar...
Lx.26-8-77
Navega ternura o puro instante.
Distante é o mármore do gesto
inscrito em a [na] mesa.
Lx.26-8-77
O verdadeiro destino do artista é ambivalente: por um lado, o subtil exílio que sofre; por outro a revolta que o leva a redimir-se através de Deus.
Lx.27-8-77
A sombra brilha.
A distância cede.
Que dia perfeito habitaremos.
Amaremos sob o suór da praia
Que apenas principia : verbo e nada.
Lx. 8-9-77
É uma vulgar manhã de domingo, e, em mim, renascem revolta e inquietude. Há um facto que me dói : a castração. Como se quisesse abranger [a] realidade e esta me negasse qualquer esperança de conhecimento. Tudo, em mim, é abstracto e eu estou bêbedo [ébrio] de beleza.
Lx. 25-9-77
Tal é a castração quotidiana que já não penso: não sou senhor do meu pensamento. E este exige uma arquitectura legível. Sei que já não sou eu, que me demiti. Tudo está certo, até a vertigem do manicómio.
Lx. 2-10-77
A claridade veste o dia : como optar pelo manicómio com um dia lindo?
Lx. 3-10-77
A noite tem sua respiração intacta
e já alumia a jovem madrugada.
1977
A tarde celebras
entre secretas [ambíguas] sombras.
Que espanto caminhar
e não coincidir.
Lx.7-10-77
Jaz novembro
Em as [nas?] pálpebras das águas.
A nossa inocência é
concâva. Um barco de beleza.
Assim respiramos.
Lx.1-11-77
A realidade é indecifrável: não há sentido possível, não há saída. Deus é uma abstracção. Tão eloquente como nós, divinamente humanos. A nossa infindável tragédia é ser-se, e ser-se zero. Sem continuação. O princípio do fim acha-se em nós porque é inadiável o suicídio. A migração não é senão uma fase intermédia: já sepultámos os seres e as coisas mais nuamente amadas.
Lx. 8-9-77
Anunciemos a morte.
A mais pungente, ruminada
até aos espelhos da memória...
Escutemos o corpo, adiados...
Lx. 77
Lx. 17-3-78
_
Num caderno de 1970 ainda sem título:
Livro: Geometria da gramática ou a ginástica do poema
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Outros poemas
Do caderno: Vocação divina Inscrições: "Como uma vida exterior o mais monótona possível, Nietzsche prova que o pensamento por si próprio, quando conduzido na solidão, é uma temível aventura."
Cadernos II - Albert Camus
"O homem que eu seria se não houvesse sido a criança que fui."
Cadernos II - Albert Camus
Vocação DivinaHomenagem ao Papa João XIII e a Pier Paolo Pasolini
III
Amor e aviltação
Que Vossa palavra jamais se avilte em minha boca:
efémero este terrestre reino que habitamos, amargos, silenciosos...
Se ócio ou pausa houver, que o Senhor nos inicie em seu caminho, coração puro, limpa e liberta a palavra.
Lx.9-7-77
VI
O desastre
Senhor, Vos ofereço esta dura prova,
e fortificai a minha fé, em caso de desastre.
Lx.23-7-77
-
Livro: Uma pequena paz talvez
(À Ana Maria)
Hão-de vir
as noites nuas
e os jovens amantes
Hão-de vir
os antigos instantes
e as sombras que estuas
Hão-de vir os dias secretos em que as minhas mãos serão tuas
Lx. 27/3/89
Na mais ampla mesa do pensamento
repousa a ideia antiga do instante breve
Lx. 8-7-89
-
Eu sei o que é o manicómio:
É essa ideia central que me obceca.
Nem é noite nem dia : é a alba ...
E tudo principia onde acaba
Este historial de coisas, essa amargura que me cega ___ e cala ...
Lx. 28/5/89
Versão final Lx.ª 2003/03/28
Busco raparigas do sul
onde abundam vento areia e mar
e a mágoa de seres tão sozinho
E a melancolia nasce
o sol disperso pasce
em o manso sussurro do regato
antigo como eu
Lx. 8/7/89
Livro: Elogio do rigor
Inscrição no início do caderno
De manhã. Ana, respiro relva na cidade.
Ontem dizias-me coisas, coisas... coisas graves
"transforma-se o amador..." oh respirai as nuas aves
moribundas. Disperso, como coincido, na cabeça, com minha idade.
Lx. 22-12-76
Assinado: Manoel Ferreira da Motta Cardôzo
(À Mali)
Hoje Mali ver-te falar-te foi amanhecente
Quando a cidade acesa madruga.
Foi lâmpada iluminando-nos nós e as vozes vertentes.
Mali tu és circular apelo quando o suor sua
e não se despede. Não sei como há tanto ausentes.
Lx. 24-12-76
Que sombra na rua lateral do pensamento...
Que já nem pensa lateral ____ a sombra mas a rua da obra.
E assim se soçobra na árvore da realidade e seu movimento.
23-12-76
este e outros poemas deste caderno estão assinados com Manoel Ferreira da Motta Cardôzo numa das revisões (2001).
-
Meu rosto remonta à infância dos espelhos,
e que antigo rosto o revela?
Lx. 30-12-76
(À Mali)
Anoitece, faz um frio mental
cuja opacidade se reflecte nas pupilas.
Menino foste e música, acorda as margens de metal
de uma cidade e súbitos abismos. As pupilas de espanto qui-las.
Lx. 2-1-77
(À Mali)
De tua acutilante boca acordada na minha,
resta o suor de uma rosa talvez naufragada,
o perfume da espuma da praia mais desejada, antiga e marinha.
Lx. 3-1-77
(À Mali)
Aqui se fundam os alicerces da claridade
e do rigor. Aqui suspende-se um dia claro
e a geometria inaugurada dos jardins do rigor.
Se visiono, se deliro ___ não, é um violino de distância e de idade.
Lx. 5-7-77
Ars poetica II
Ars poetica III
Ars poetica IV
O absurdo do desejo traduz-se na obsessão de desejar o objecto amado e inscrito. Mas o que seduz nesse absurdo é o absurdo em si-mesmo: lonjura, aproximação, conjura, cumplicidade.
Mas o que seduz na interrogação do desejo desentranha-se [na loucura lógica?] do amor, na tragédia grotesca do desejo malogrado.
Isto é, somos absurdos protagonistas do absurdo. E sabem?, às vezes, veridicamente , o absurdo e a interrogação do desejo transigem com o absurdo da beleza de viver.
Lx. 5-1-77
-
Sugiro um espaço de desejo
que fôra singrar-te em um abraço
por que já não espero nem pergunto nem meço
Lx. 17-12-76
.
À Ana Maria
Neste Natal que não neva
e é divino
minha dispersão e ópio são nada
perante ti Mali que és alva e pura erva
se te escrevo não é abstracto sugiro-te longas madrugadas
Lx. 25-12-76
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Livro: Ciclo incompleto sobre a memória de uma mulher (1979)
Para a Maria João
Poemas eróticos
inscrição no início do caderno:
"Meus olhos resgatam o que está
preso na página: o branco do branco
e o preto do preto.
(Ibn Ammar, A leitura)
Poemas arábicos-andaluzes, in O bebedor nocturno - Versões de Herberto Helder
I
Não não é só o rigor da tua nudez mas a mão mansa
o espelho e o brilho da tua nudez limpa
e a mão que múltipla e acesa me singra
Lx.9-11-79
III
Como se me adere a branca rede da tua nudez
se bebo os teus seios se osculo a tua boca se a minha língua fende a tua concha húmida
Não sei que música que musa preside à nudez dos meus dias feitos água oh fêmea efémera
Lx.13-11-79
IV
Respiro os teus mamilos a boca secreta do teu corpo
que paredes irrompem na fala da tua nudez oh ática brancura
que fendo oh minha amiga de espelhos de ternura e abandono que envolvem o desespero do desejo
sua aspiração antiga diurna.
Lx.13-11-79
Caderno: Rumor de inverno
X
(A Cecília Meireles)
Oh sede de brancura sede de tristeza
sede de amar
Lx. 1981Manoel Tavares Rodrigues-Leal
XI
(Ao meu irmão Nuno)
Assino a loucura com mãos de aristocrata...
Lx. 1981
XXV
E se eu recuasse à infância
- escassa - e esquecesse a infinita distância?
Lx. 31/1/81
XXIX
O círculo de luzes da cidade anoitece...
que cio de melancolia enlanguesce...
Lx.3/1/81
XIX
Eu sei de um círculo exacto
que habita cada gesto intacto...
Bloqueado círculo, porém, onde viver é intruso tacto...
Lx. 26/1/81
XXXVIII
Oblíquo o gesto desliza,
e tudo é rumor ou brisa.
A sombra desenha o corpo,
e retém, vegetal, sua respiração.
Como o claro dia, a noite vem, e é aparição...
Lx. 15/5/81
-
O dia bloqueado,
como o brilho de um diamante...
ondas serenas de sensações,
sem verdade, e tudo já é tão distante...
Lx. 15-4-81
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Caderno: A ausência e o axioma (1968)
Interdizer os dedos
incliná-los na esfera
submetê-los sim porque
há nas horas à despedida
uma seta que nos espera
26/5/68
Intensa tarde de verão e de vozes
pequena tarde tímida
que se permite
Lx. 7/6/68
Quis-se a quietude da tarde
A ilha mais líquida de luz
O olhar que alonga o gesto
O azul extático que se estabelece
Lx. 14/6/68
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De um outro caderno (1967)
Polémico silêncio
__________de disfarce
_____ Lua de desejo
___________ Habita teu olhar
Mas eu respiro
__________ A aventura sempre nova
_________________ Da tua face
Lx. 22/4/67
Gesto é o tempo da palavra submissa
Convergente
Ou insistente gesto no teu corpo
Porto 1/7/67
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