quinta-feira, 2 de março de 2017

Manoel Tavares Rodrigues-Leal - e outro poema a Fernando Pessoa

Manoel Tavares Rodrigues-Leal

Fernando Pessoa

As cartas de amor são ridículas, meu velho Álvaro de Campos,
mas ridículas, dizias, eram aqueles que não escreviam singelas cartas de amor.
De amor maiúsculo pingou um pingo esfíngico e gordo. E se fôssemos, Fernando, ao brandy imaculado da Metafísica, Pessoa sempre impessoal, ubíqua figura.
Era a frescura de risos de raparigas lindas, límpidas, tão íntimas, eram risos
trincados de rosas sem rigor nem alma.
E há Bach, Seixas, Mozart, uma longa lista de sábios em música,
afogados no tempo; mas tu Pessoa és sempre a geométrica pessoa trágica e traída.
Esquecia-me Pessoa: ambos somos ridículos em não escrever cartas ridículas
de amor, pois é manhã marcada, e quem trabalha cedo amanhece
mas com aqueles sorrisos, risos sonâmbulos, risos trincados pelas vidas,
Amargos sorrisos maculados de quem, na pele e no rosto, ínvios caminhos conhece.
Juventude, juventude ressurge, mas jaz a arte de matar-me-te, arte articulada à vida.

Poema inédito de Manoel Tavares Rodrigues-Leal
Lx.
Belas – 26-9-76





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